sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ver e olhar: duas interfaces da mesma moeda

O trabalho com bebês e crianças muito pequenas, exige uma série de capacidades do educador. Essas capacidades e/ou habilidades são desenvolvidas ao longo do percurso através das trocas sucessivas do docente com entorno que o rodeia. Nesse sentido a formação continuada e permanente auxilia nesse processo, permitindo um exercício de autoanálise e reflexão.
Dentre essas habilidades trago a capacidade de escutar e olhar. Muito mais do que ver, é preciso desenvolver um olhar atento e apurado para nossas crianças, de modo que consigamos compreendê-las a partir de uma perspectiva aprofundada e empática. Assim, construímos uma percepção singular.
O ver é tão importante quanto o olhar, mas é uma forma de percepção mais despreocupada. Vejo muitas coisas no meu dia a dia. No entanto, guardo comigo aquelas que me foram mais significativas ou marcantes, ou seja, os acontecimentos, fatos, histórias para as quais atribui um olhar diferenciado.
O olhar é muito mais cuidadoso, profundo, carregado de significantes que acaba os significando. O olhar envolve subjetividades, percepções sensíveis, aquilo que há de mais bonito do ser humano.
Não sei o porquê, mas tenho mania de carregar no meu bolso uma série de “olhares”, os quais utilizo sempre que necessário para meus diferentes alunos, para as diferentes infâncias com quais tenho prazer de dividir meus dias, numa relação dialógica enriquecedora.
Costumo dizer que a docência nos leva a ver para além do que está dado. E, assim com o passar dos anos fui me tornando uma boa “olhadora”, pois somente o ver não me bastava.

.

sábado, 16 de abril de 2016

Os desafios da elaboração de textos qualificados para postagem no blog

Elaborar textos não é tarefa fácil, simplista e terminada em si mesma. Para escrever um bom texto, é preciso se deixar levar pelo mundo abstrato das ideias, é preciso concretizar em palavras os nossos pensamentos, construções e convicções mais profundas e verdadeiras.
Apaixonada pelo mundo das letras, desde a mais tenra idade, acredito que a escrita exige um movimento de entrega por parte do escritor. De tal modo, que esse envolvimento permita a conexão de ideias e um engajamento das diferentes partes que compõe o texto.
Ao escrever, devemos sempre lembra a intenção do nosso registro. Assim, o autoquestionamento é muito bem-vindo! Afinal, qual a mensagem que desejamos transmitir com esse texto? As pessoas que o lerem compreenderão o que está sendo proposto?
Perguntas como essas nos fazem pensar sobre o que estamos escrevendo e ajudam a tornar nossa escrita mais clara, precisa e coerente.  É de extrema importância que os argumentos apresentados ao longo do texto sejam claros e bem sustentados, de preferência com um referencial teórico rico.
Pensemos assim, por meio de uma metáfora, é como se costurássemos uma linda colchas de retalhos onde cada pedacinho de pano representasse fragmentos de ideias, inspirações, leituras, reflexões, construções e desconstruções. Sim, porque um bom texto é feito de inúmeras interfaces.
E depois de pronta, essa linda colcha de retalhos necessita ser revisada, rematada. Feito isso, é possível ter a tranquilidade da elaboração de um bom texto. Certeza, de que essa escrita está totalmente pronta e acabada não teremos, pois novos pontos podem surgir, críticas podem a enriquecer.

Para escrever, é preciso ter intencionalidade, humildade, relativização de pontos de vista e principalmente paixão e encantamento.


quinta-feira, 31 de março de 2016

POR UM ANO LETIVO REPLETO DE AMOR...

Um novo ano letivo se inicia! Para 2016 proponho uma receita com doses generosas de amor...
Isso mesmo, AMOR! Sentimento que falta em excesso em nossa sociedade e que deveria ser o gérmen da vida, a base de nossas relações interpessoais. Mas para ela ficar ainda mais completa sugiro colheradas de bom humor, afabilidade e doçura.
Pitadas de sonhos também são essenciais, pois não é possível fazer e viver a educação sem a chave mestra de sonhar!
Sugiro menos olhares inquiridores e mais mãos estendidas. Que muito mais do que conexões de ideias, haja conexão de corações, em prol de uma educação de qualidade feita para e com as crianças.
Eu realmente desejo, nossa eu desejo tantas coisas e sou movida por tantos sonhos que me faltariam linhas para escrever... mas que seja...
Na minha receita não poderia faltar xícaras de empatia, relativização de pontos de vistas, aceitação das nossas imperfeições e a vontade de sempre mudar para melhor! Ah... humildade e tolerância também são essenciais!
Quanta as crianças... Para elas não preciso propor receita alguma, pois são exuberantes por natureza. Elas sim, sabem viver e conviver, dentro se sua simplicidade, lógica perspicaz, criatividade... As crianças são poesia em forma de vida...
Então, sem mais me alongar... e pegando uma carona com nosso querido Paulo Freire: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática. ”
Que tenhamos um ano muito feliz, permeado de boas intenções, inovações e transformações positivas. E que o próximo ocupe um lugar especial em nossas vidas. Que possamos compartilhar sorrisos, tecer ideias, costurar nossas emoções. Acredito que só somos felizes quando nos alegramos com a felicidade do outro.
Que Deus nos proteja e guie nossos passos hoje e sempre!
Dada receita, “bora” trabalhar!

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A importância do brincar na infância e na educação infantil

O brincar é uma das atividades mais importantes da infância. Deve ser vivido em sua plenitude com o maior número de repertórios possíveis. É direito de toda a criança brincar. E cabe a nós, professores da infância, garantirmos esse direito.
Lembro-me, que quando tinha cinco anos de idade, todas as manhãs enquanto minha avó cuidava dos afazeres domésticos, montava um cenário no pátio da minha casa. Levava cobertor, o qual estendia no chão, minhas bonecas, mochilas e diversos apetrechos os quais julgava necessários na minha brincadeira.
E, lá permanecia brincando, confabulando no meu mundo imaginário e criando histórias. Que tempo bom! Saudades da minha infância. Brincava de “casinha”, de “ser professora”, de fazer teatro”...
Brincar é coisa séria, pois através dele a criança organiza seu mundo interno, revive situações boas e ruins, elabora problemas, se reestrutura psiquicamente, criando novo finais para histórias já vivenciadas. O brincar é extremamente estruturante. Um adulto saudável, com certeza brincou na sua infância.
Na Educação Infantil, a aprendizagem ocorre através do cotidiano e principalmente através da brincadeira, uma linguagem universal no universo infantil. Através dela apresentamos o mundo em “pequenas doses”, como diria Winnicott. A partir daí a crianças vão construindo seus saberes de maneira prazerosa e significativa.
Aos professores, cabe a ampliação dos repertórios de brincadeiras para além dos brinquedos prontos e industrializados. Trazer elementos da natureza para dentro da sala referência, propiciar brincadeiras ao ar livre com areia, gravetos, grama.  Disponibilizar materiais não estruturados para que as crianças possam criar, valando-se do jogo simbólico é fundamental para uma plenitude do brincar na infância
“Qualquer atividade humana que seja desfrutada em sua realização –na qual a atenção de quem a vive não vai além dela- é uma brincadeira”. (Maturana, Verden-Zoller, 2004, pag. 232)

Referência:

 MATURANA, Humberto R. e VERDEN-ZÖLLER, Gerda. Amar e Brincar: fundamentos esquecidos do humano. Tradução de Humberto Mariotii e Lia Diskin. São Paulo, Palas Atenas, 2004.





segunda-feira, 28 de dezembro de 2015


“Permitir que as crianças tenham acesso a língua escrita através de um ato de carinho e respeito, rodeado de coisas que não compreendem, mas que dão a vontade de compreender. Essa é uma das melhores introduções a cultura escrita”.  Emília Ferreiro
Inicio meu texto com essa fala significativa de Emília Ferreiro. Entre os diversos fatores que interferem no processo de ensino e aprendizagem encontra-se a afetividade. Dentre muitas instâncias que nos compõem- a afetividade é uma das mais importantes. Sem afeto, ao meu ver, fica difícil de ensinar e aprender.
Muito mais do que decifrar letras o processo de alfabetização é um complexo, gradual, contínuo e progressivo, onde respeitar o outro –aprendente- é fundamental para que tenhamos sucesso nessa difícil empreitada.
Acredito em uma pedagogia relacional, marcada pelo ir e vir entre sujeito e objeto. Sendo assim, ambos os lados se esforçam e se completam numa perspectiva dialógica e rica. O carinho, o respeito, a escuta e olhar apurado são fatores primordiais que todo o professor deve desenvolver ao longo de sua caminhada.
Compreender a cultura do aluno, seus conhecimentos prévios, suas inquietações, acolher seus questionamentos é o que enriquece o cotidiano em sala de aula. Um grupo de pessoas com especificidades singulares, atravessados por discussões e trocas valiosas, onde diferentes saberes se encontram, se complementam e se reconstroem continuamente.
Trabalhando com educação infantil, em especial com crianças muito pequenas, pude fazer uma série de construções ao longo do semestre que forma de grande valia para afinar meu olhar enquanto educadora da infância.
A aprendizagem da leitura e escrita inicia-se meses após o nascimento. Todavia, se desenvolve plenamente se houver uma atividade mediada. Dessa forma a presença de uma pessoa alfabetizada é fundamental, no sentido de dividir seus conhecimentos com alfabetizando. Penso em aprofundar meu olhar nesse sentido, procurando textos, reportagens científicas sobre esse assunto, já que trabalho com crianças muito pequenas.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Entre os muros da escola: um encontro com a felicidade

Costumo dizer que a infância é a etapa mais bela e poética da vida. Tempo de sonhar, acreditar no impossível, fantasiar e viver essa fantasia, brincar, ser feliz! Tenho o privilégio de trabalhar com a educação infantil e a partir daí que escreverei meu relato.
As crianças por si só, já trazem consigo a felicidade e são justamente elas que compõe o cenário educacional, junto dos professores e demais funcionários da escola. Não estou tirando com isso o direito a tristeza da infância, o que absolutamente comum, pois faz parte do processo da vida.
Nessa riqueza de um encontro imprevisível, com múltiplos atores, com diferentes especificidades, experiências e culturas é que está a alegria da escola. Aprendemos, compartilhamos, trocamos, experienciamos, tentamos, fracassamos, construímos, reconstruímos práticas e saberes baseados numa pedagogia relacional.
As interações entre os pares da mesma idade, das crianças maiores com as menores, nos professores com alunos e demais funcionários, criam um ambiente riquíssimo para que aprendizagem aconteça em todos os momentos da vida cotidiana. No cotidiano nada é banal e as práticas cotidianas fazem parte do currículo na educação infantil.
Percebo a felicidade está nas delicadas tessituras da infância, como por exemplo – o pequeno menino que encontra um tesouro no pátio em meio as pedrinhas do chão. Ou quando, a menina que até então usava fraldas consegue fazer suas necessidades no penico e sente-se muito feliz e gratificada com sua nova conquista. Miudezas, “pequenices”- aos olhos de gente grande- mas que são carregados de significados, de descobertas, de felicidade.
É nesse cenário que trabalho e que me encanto dia após dia. Na alegria do encontro com inusitado, com a vivacidade das crianças, com as teorias construídas por nossos “pequenos”, com afetividade e generosidade que as crianças concebem o outro e o mundo a sua volta.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

       “Infância soft”

O termo "infância soft" é proposto por Susana Rangel e Camila Bettin no texto "Retratos de uma infância contemporâneo: os bebês nos artefatos visuais". Essa infância é retratada como angelical, perfeita, despojada de tristezas, como se a fase de ser bebê foi investida somente de alegrias. Nesse sentido, a criança é vista como um ser inocente, belo, feliz por natureza. Essa infância, geralmente, é representada por crianças brancas, de olhos claros, “fofinhas” e rechonchudas.

Não espaço para outras infâncias possíveis e, sem dúvida, existentes que permanecem invisíveis na escuridão. Permeada por uma lógica que exclui e segrega os que não se encaixam nos padrões do grupo, acaba vendendo produtos e concepções do que é ser bonito, o que deve ser valorizado e o que não deve, apresentando um padrão de corpo infantil que deve ser cuidado e mantido por uma estética padronizada.




Fonte: BORGES, Camila Bettim; CUNHA Susana Rangel Vieira da. Retratos de uma infância contemporânea: os bebês nos artefatos visuais. Textura, v. 17, n. 34, p. 99-111, 2015.